É uma máquina de fazer sonhos

1
Projeto Cinema, Floresta e Itinerâncias
22 de abril de 2016
3
MAMAZÔNIA
22 de abril de 2016

“É uma máquina de fazer sonhos”

Foi o que disse a moça sorrindo, e a menina pareceu ficar ainda mais fascinada e curiosa com a resposta. Havia muitas crianças ao redor, num silêncio meio contido, próprio da veneração, mas menina havia conseguido superar todas as suas barreiras e perguntar à moça o que era aquilo.

A moça continuou montando a máquina, e todo o procedimento atiçava ainda mais a fascinação da menina, que ousou perguntar de novo: “Como assim uma máquina de fazer sonhos?”, “Você vai ver, é lindo que só” disse a moça, e continuou trabalhando em silêncio.

As pessoas estavam se achegando. Depois dos pequenos, os velhos haviam sido os primeiros a chegar. Procuravam lugar para sentar e, embora não fossem atirados como a criançada, olhavam de soslaio para a máquina, pois não há novidade que escape da curiosidade num povoado distante como aquele.

Num dado momento fez-se o silêncio, de quando em quando afastado por um choro de criança ou por uma tosse dos mais velhos. Uma luz saíra da máquina e iluminara onde todos começaram a olhar. Então aqueles homens e mulheres começaram a ver coisas fantásticas. O passado do mundo desfilou diante deles. O presente que nunca perceberam também. Viram o início e anteviram o fim; a vida e a morte; a harmonia da natureza e a cobiça do homem; a criação e a destruição. O céu e a terra, a água e o fogo passaram sobre eles, e as coisas de suas vidas viraram coisas do mundo inteiro. A floresta e rios sumiam e o mundo secava de tão quente. Viram que eram miseráveis mesmo morando na terra mais rica do mundo, que haviam ricos em lugares distantes às custas da devastação. Viram que não usavam os poderes que tinham para mudar isso.

Tiveram alegria e medo, sentiram-se pequenos mas poderosos. Perceberam que tinham o dom de fazer coisas belas e coisas monstruosas. De manter a harmonia ou de criar o caos.

Ao redor, a noite quente e cheia de grilos sussurrava, enquanto a luz azul do cinema mostrava que o destino de tudo estava nas mãos deles.

Pedro Abi-Eçab (Promotor de Justiça do Ministério Público Federal – Guajará-Mirim– Rondônia)

Os comentários estão encerrados.