MAMAZÔNIA

ALDEIA DAS ARTES
É uma máquina de fazer sonhos
22 de abril de 2016

MAMAZÔNIA

Dori Carvalho*

       Uma pergunta sempre fica batendo na saudade, na distância, nas lembranças e ficamos pensando nas amizades perdidas no tempo: cadê os companheiros?
De vez em quando – “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído” – aparece um desses amigos que o turbilhão da vida levou para outros mares e mundos.
Esta semana recebi um telefonema: você tem um amigo que faz cinema e há muitos anos não vê? Respondo na lata: tenho, Celso Luccas. O cineasta estava em Manaus.    

 Era um desses caras aventureiros, sinceros e criativos. Trinta anos atrás ele rodava o Brasil e o mundo com um sonho na cabeça, umas latas e um projetor 16mm. Dois filmes sobre as lutas de libertação em Angola e Moçambique e a revolução em Portugal: “25” e “O parto” feitos por ele e o eterno rebelde, diretor de teatro, José Celso Martinez Correa. Era o “cinema ambulante”, rodando em qualquer cantinho, praça, esquina e lugarejo esquecido do mundo. 
Naquele tempo tínhamos os cabelos longos e pretos e íamos mudar o mundo. O mundo não mudou nem mudamos nós. Continuamos resistindo. “Lutar quando é fácil ceder, negar quando a regra é vender”. 
Luccas aparece agora em Manaus com duas novas latas, o mesmo velho e resistente projetor e os cabelos grisalhos. O cavaleiro solitário do cinema viajante não está só, aumentou a “troupe” e a família. A mulher e parceira de cinema e a filha. Brasília e Tainá. Tem tudo a ver com este brasileiro. Aventureiros do bem. O mesmo jeito de arqueiro zen pra enfrentar as venturas e desventuras. Com as mesmas flechas e arcos: o cinema e a procura da verdade. A nova arma é “Mamazônia – a última floresta”. 
Numa tarde de quinta-feira, no teatro Gebes Medeiros, avenida Eduardo Ribeiro, Manaus, Amazonas, Brasil, lá estava o “romântico” cineasta envolto em fios, latas, películas, telas, eletricidade e vida, fazendo seu trabalho de formiga, sem tapete vermelho. Mais uma aventura. Naquele momento, passando a película pelos pinos do projetor, a modernidade parece empurrá-lo para o dvd, o data-show, mas duro na queda, resiste. Caixa de som testada, telas penduradas, foco ajustado. Tudo pronto. 
As pessoas vão surgindo aos poucos, entrando um tanto constrangidas. Parece a “última sessão de cinema”.  Um outro ser romântico convida os transeuntes para entrar, como um comerciante árabe ou judeu na porta da loja. “…vamos entrando senhora, entra menino, é de graça.” E, de repente, já temos uma boa platéia. 
Sala escura, o filme já vai começar. O professor Renan, apaixonado por cinema, constata admirado: é projetor, mesmo! 
Não poderia faltar o ssshhhiiiittttt, para espantar um inexistente condor. “Uma confusão de prosódias e uma profusão de paródias” toma conta da tela. Mamazônia é a caminhada, a vinda de famílias seduzidas pelo sonho do Eldorado, para a Amazônia. O “paroeste”. Índios e brancos lutando por terra e os tubarões se aproveitando. Diferente dos pioneiros do oeste americano, no nosso caso, os colonos são chamados de “piotários”. Pobres buscando a sobrevivência, sendo roubados, o comércio de moto-serras proliferando e o “dia da derrubada” sendo comemorado e a floresta devastada.Latifundiários tomando o caminho aberto por camponeses, fome e sangue. Terras indígenas invadidas e o mercúrio se espalhando nas águas dos rios. Mergulhadores arriscando a vida e pás mecânicas destruindo o leito dos rios. O santo Daime, o povo de Juramidan. Um camponês jogando na nossa cara: “em toda a minha vida a única terra que tive é a que tenho embaixo das unhas”, um garimpeiro entregando: ” não é preciso ser louco pra trabalhar aqui, mas se for… melhor”. Um velhinho cheio de juventude denunciando e apontando caminhos. Água, terra, floresta, ar, sol, as belas imagens da Amazônia na lente de Celso Luccas. O mal que está sendo feito e o bem que pode ser feito. O mundo sendo revirado e o que não estamos fazendo. 
Mamazônia, a última floresta é um tapa na nossa cara sem-vergonha. 
Meu filho lembra para mim a figura defensora da floresta, o Mapinguari: “com minha boca, na barriga, que é enorme, devorarei todo individuo humano que ousar poluir os rios e os solos da face da terra. 
Agora, estão subindo o Solimões, mostrando o filme para comunidades ribeirinhas do nosso Amazonas. A idéia é essa, mostrar pra quem não pode ver. Já rodou o mundo mostrando seus olhares inquietos e inquietantes sobre a Amazônia. África, Europa, Ásia, Santa Luzia do Baxio, Alter do Chão… tanto faz. Lá estará o nosso Luccas, andarilho, com seus pés de caminhar e olhos de ver, com seu projetor e latas e rolos de filmes e sonhos. 
Tenho certeza que o Brasil seria bem mais Brasil, que a vida seria bem melhor e mais bonita se existisse mais gente assim.

*Dori Carvalho é ator e poeta. Vive no Amazonas e é autor dos livros “Desencontro das águas” e “Paixão e fúria”

Os comentários estão encerrados.